quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Carta que nunca vai ser enviada

Olá Raquel

Hoje faço 24 anos. Há um ano atrás estávamos a construir a nossa relação .Mensagens atrás de mensagens, telefonemas sem fim... Sorrisos. Muitos sorrisos.

Admito que fui injusta contigo. Por mais que te tente pintar como uma mulher maldosa ou tóxica, não é bem assim. As coisas não são a preto e branco. Acusei-te de inúmeras coisas. Uma delas, a que me lembro mais nitidamente, foi a acusação de me estares a usar para esquecer o Carlos. Agora que amadureci - porque este último ano foi de um crescimento interno avassalador - pergunto-me: Não estaríamos as duas a usar-nos mutuamente? Numa tentativa de esquecer alguém que nos magoou e nos traumatizou profundamente?... Não seria a minha acusação um reflexo do que eu própria estava a sentir? 

No dia em que conheci a minha actual namorada estava totalmente curada. Já te tinha esquecido e o Carlos já há muito que fazia parte da história. Tinha feito o meu período de luto. Sentia-me revigorada. Pronta para o futuro.
Não sei se foi isso que nos faltou. O luto. 

Tenho noção que erraste comigo e que tive a necessidade a determinada altura de te cortar completamente da minha vida. Ninguém melhor do que eu para saber a importância de cortar pela raiz aquilo que me estava a fazer mal. E no final de contas foi isso mesmo que me fez ultrapassar o que sentia por ti (ou o que achava que sentia).

Também sei que isso agora pouco importa.
No sábado é a minha festa de anos. Vai estar o Marco, a minha irmã e outros amigos que nunca chegaste a conhecer. Vai estar a minha namorada. Com quem estou há cinco meses. Com quem construí uma relação sólida. Uma mulher forte, determinada, inteligente e com um sorriso que me faz apaixonar mais por ela a cada dia que passa. Uma mulher por quem, se bem te conheço, nutririas uma admiração enorme. Tal como eu.

Não me entendas mal - estou a fazer uma retrospectiva deste ano que passou. Há um ano estiveste tu cá em casa. Com as minhas pessoas. Partilhei o meu espaço contigo. A nossa relação não resultou mas, minha querida Raquel, nunca iria resultar. E eu não estou triste por isso! Aprendi tanta coisa contigo!

Acredita que nunca me vou esquecer de ti. Seja quando puser os sapatos de salto que comprei contigo enquanto pinto os lábios de vermelho, ou mesmo quando vestir a camisola de lantejoulas que me ofereceste.

Espero que estejas bem e que tenhas alguém ao teu lado que te faça feliz, because Rach... You're special. And you walk in beauty!

Beijinhos

Leonor

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

recostada na cadeira, os lábios pintados de vermelho
o maço de lucky strike meio vazio em cima da mesa
um bolo gourmet do kayser com cobertura de limão
nunca fizeram isto por ti?

devaneios sobre o camilo castelo branco
a pretensiosidade daquela figura que nada te dizia
quem escreve por dinheiro não pode escrever com a alma
guardei essa frase e repeti-a aos meus colegas
(pareceu-me tão inteligente)

- minhas senhoras, não podem fumar aí
peço imensa desculpa, não fazia ideia, no outro dia fumei, mas sim, realmente, incomoda os outros clientes, nós mudamos já de mesa, peço imensa desculpa
(não precisas de dizer tanta coisa, vamos só mudar de mesa...)
é que no outro dia estive aqui e havia cinzeiros
(por favor, vamos mudar de mesa, daqui a pouco vais-te embora)

o medo. o medo de fazer alguma coisa e ela achar-me inadequada.
o terror de dizer algo com que ela discorde totalmente.
o terror de ela me achar estúpida.
o terror de ser eu.

onde íamos nós?
(na minha paixão avassaladora por ti?)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015